Sempre tive dificuldade em compreender
alguns comportamentos humanos.
Achei que, com o passar dos anos,
isso diminuiria.
Mas não.
Aprendi a conviver,
Embora meu corpo ainda carregue
as consequências de ouvir,
todos os dias,
grandes barbáries.
E, por vezes,
de presenciá-las.
O preconceito não mora apenas
na agressão direta.
Ele também se esconde
no bullying,
na "brincadeira inocente",
na piada contada
entre amigos e familiares.
Dizem que é proibido falar
de futebol,
religião
e política.
Preto fala de preto.
Branco fala de branco.
Gordo fala de gordo.
Magro fala de magro.
Mas, quando o assunto
é saúde mental,
parece que todos
se sentem autorizados a opinar.
Gardenal vira piada.
"Retardado" vira palavra de passagem.
O preconceito veste o disfarce
do humor.
Passa de geração em geração,
ensinado nos olhares,
nas risadas,
nos almoços de domingo,
sob o aval silencioso
dos patriarcas.
E, quando finalmente
volto para a minha realidade,
agradeço.
Pela liberdade
de não precisar rir
da dor de ninguém.
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